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domingo, 20 de novembro de 2011

“Soledade nasce no crauá e nele florescerá”

Por Abdias Correia de Cantalice*

O título acima foi citado pelo Padre José Antônio Maria Ibiapina na ocasião em quer se deparou com essa terra quente, árida e seca de nossa região. Soledade, localizada no Extremo Oriente do Cariri Histórico da Paraíba (hoje Curimataú, segundo o IBGE), foi festejada com os passos deste líder religioso que pousou suas graças e sua bênção nesta terra de infortúnio, de ausências, de solidão.

Padre Ibiapina é o apóstolo do Nordeste. Esta relação simbólica entre o místico, o mítico e o religioso foi provocada por uma necessidade cultural relacionada com o social. O Brasil do século XIX e início do século XX era palco de extremas desigualdades sociais. No Nordeste a situação era pior. Calamidades naturais agravavam ainda mais a situação: secas que ceifaram milhares de vidas; doenças que dizimaram outros milhares; latifúndio opressor e massacrador das massas populares, que oprimiam os pobres já oprimidos; produziram nas classes pobre sertaneja um sentimento profundo de cunha religioso. Surge com isso a figura do beato, do padre como propulsor das verdades e das boas novas para aqueles que viviam de infortúnio e ausência. A figura do beato nos tempos de outrora teve sua importância na formação social e na consciência cristã deste povo ordeiro do Nordeste brasileiro tão a margem das propostas políticas. Nomes se consagraram nacionalmente. Dentre os diversos líderes religiosos podemos destacar: Antônio Conselheiro, na Bahia; O Monge José Maria, na região Sul; Padre Cícero Romão, no Ceará. Líderes com propósito diversos, mas que nos movimentos liderados por eles confluíram misticismo, revolta, política e principalmente sincretismo religioso.

A inversão cronológica feita com a citação de tais religiosos serve para fazer alusão ao sentimento voltado para o divino do povo sertanejo e que tinha neste último (Padre Cícero) a representação máxima do Divino. Com Soledade não seria diferente.

O Padre Ibiapina nasceu em 05 de agosto de 1806. O local de nascimento é contraditório. Alguns biógrafos afirmam que ele nasceu na freguesia de Sobral, no Estado do Ceará. A relação com a religiosidade já se dá no seu nascimento, pois não havia pároco naquele povoado, razões que seus pais o levaram para o batismo na fazenda Olho d’água de Jaibara. A Revista Instituto do Ceará pagina 292/293 (1966) enfatiza que “a atual e florescente cidade de Ibiapina antiga Aldeia do diabo Grande é de fato o berço do glorioso Padre Ibiapina”.

Parte de sua educação é confiada ao Padre Antônio Manuel de Souza, sendo, pois grande influenciador dos dotes religiosos do “Servo de Deus”. Formou-se em direito, exercendo funções correspondentes com sua formação, mas foi na vida religiosa que mais se realizou, sendo assim, o inicio dos passos caridosos desempenhados nas regiões do Brejo, do Cariri e do Sertão Paraibano. Nestas caminhadas chega á Soledade.

Entre suas inúmeras obras estão as famosas “Casas de Caridades” e os “Campos santos”, este ultimo está diretamente ligado com a História de Soledade. Foram com estas ”Casas” e “Campos Santos” que o padre Ibiapina adentrou aos sertões, passando pelo Brejo, (deixando marcas Históricas em várias cidades, principalmente na cidade de Arara) e pelo Cariri, Terra árida, Terra quente, Terra deserta, comumente Soledade. Padre Ibiapina passando por São Francisco (atual Olivedos), em 1965 iniciou o trabalho de ereção de uma igreja para o qual recrutou moradores da vizinhança, não levando a cabo em detrimento de um do desentendimento que houve entre o missionário e o senhor, com patente de capitão, João Tavares de Brito, sendo erguida tempos depois por outra geração. O padre despediu-se da amistosa população se direcionando para outra região propícia a construção de um Campo Santo.

Dez anos antes em 1856, a Paraíba com população de 300 mil habitantes, passava por mais uma calamidade pública, proveniente de um surto de Cólera Morbus, levando a morte de mais de 10% da população da província. No Cariri a situação se complicava pela situação árida do clima em nossa região. Em Soledade o surto também ceifou diversas vidas, dentre elas foram vitimas fatais. Ana de farias Castro e seu pai (José Félix); Sebastiana (filha de Manuel Bezerra do vale), Manuel Elvídio (irmão de Sebastiana) e Tomás Ferreira de Miranda.
Ana de Farias Castro, possivelmente irmã de Manuel de Farias Castro: Fundador de Taperoá, foi vitimada pela epidemia de Cólera morbus. Aninha, como era conhecida, ao passar temporada na casas de seu tio Tomás Ferreira, na mediação da atual Soledade, foi acometida da doença, sendo apresentada colericamente. Isso a levaria a morte.. Sobre sua ultima morada foi erguida uma capelinha a pouca distância de um lugar chamado de Malhada das Vacas ou como era por todos conhecidos de Malhadas das Areias Brancas, nome primitivo de nossa Soledade e que leva o titulo do livro de Inocência Nóbrega Filho, um ilustre filho de nossa terra e autor da melhor obra sobre a história de Soledade.

A capelinha construída em homenagem a Aninha passou incólume por 10 anos, sendo lembrada, somente, em 1866 pelo então Apóstolo dos Sertões, Padre Ibiapina que acompanhado do irmão Inácio, aproximou-se da cova de Aninha e sabe da situação de que o cemitério para o qual era levado a gente da região, dista em mais de 20 quilômetros. O Padre Ibiapina convoca moradores da região para a construção de um cemitério, demolição de uma antiga capela e construção de uma capela maior anexa à necrópole. Este fato ocorrido em 1866 com apoio de vários moradores da região. É o inicio do povoamento de Soledade, graças à persistência do Sacerdote Ibiapina que fecunda o óvulo para o nascimento da hoje, próspera Soledade.

Padre Ibiapina hospedou-se numa casinha de taipa, hoje localizado na rua Dr. Gouveia Nóbrega próximo a então capelinha, atual Igreja Matriz de Soledade.

Durante a construção, sempre á tardinha Padre Ibiapina aproveitava para pregar sermões. Alguns deles enriquecidos por festividades e brincadeiras. Isso durante quase cinco meses, pois somente em agosto de 1866 o Padre Ibiapina deixa esta terra por ele fundada, sendo que ele (Padre Ibiapina) perpetua na memória deste povo, ordeiro e religioso que tanto o admira.

A toponímia do município apresentou-se um tanto conflituosa para o beato em razão de o ambiente ser um lugar deserto, ermo, ele sugere o nome de Solidão, não sendo aceito por parte da população. O impasse persiste e em meio às diversas sugestões, democraticamente escolhidas, entre os presentes, optam por Soledade. Sabe-se que esta localidade era chamada de Malhada das Areias Brancas, alguns chamavam de Malhada Vermelha, pela quantidade de barro vermelho que houve ali, sendo assim surge Soledade com a aprovação do Santo missionário que enfaticamente menciona: “Neste momento proclamo a fundação de Soledade“. E, vigorosamente cita: “Soledade nasce no Crauá e nele florescerá!”.

NOBREGA FILHO, Inocêncio. Malhada das Areias Brancas. Escola Tipográfica São Francisco, Fortaleza, 1974.

*Abdias Correia de Cantalice nasceu em Gurjão em 1975. Hoje reside em Soledade, onde realiza trabalhos na Área de Educação e Cultura. É Professor de Língua Portuguesa e Literatura, na Rede Estadual de Ensino e da Rede Municipal de Ensino. É Sócio do Instituto Histórico Geográfico do Cariri Paraibano e Sócio Fundador da Fundação Cultural Casarão Ibiapinópolis. (esta em Soledade – PB)

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